Anestesiar uma criança envolve um conjunto de decisões que pouco se parece com o que o anestesiologista faz na sala adulta. A via aérea tem diâmetro, ângulo e complacência diferentes. A farmacocinética varia conforme a fase do desenvolvimento. A reposição volêmica segue regras próprias. A coagulação do neonato tem particularidades que não cabem na simples extrapolação dos protocolos adultos. E o cardiopata congênito impõe um raciocínio hemodinâmico que precisa ser construído caso a caso.
A residência em anestesiologia oferece o primeiro contato com tudo isso, mas raramente alcança a profundidade que a prática em centros de referência exige. É nesse espaço que se posiciona a Pós-Graduação em Anestesia e Cuidados Perioperatórios em Pediatria e Neonatologia do Propofando. Este artigo apresenta uma visão geral do programa: a quem ele se destina, como está organizada a matriz curricular, quais módulos a compõem e por que esse percurso faz diferença concreta na carreira do anestesista.

Por que existe uma demanda crescente por anestesistas com formação dedicada em pediatria e neonatologia
A justificativa do programa, conforme registrada no projeto pedagógico, parte de uma constatação concreta. Estudos internacionais como o NECTARINE evidenciaram heterogeneidade significativa nas práticas clínicas em anestesia pediátrica e neonatal, e o Brasil carece de dados nacionais robustos sobre a realidade dessa população. Em outras palavras, o anestesiologista brasileiro que conduz casos pediátricos opera muitas vezes sem padronização clara, baseando suas decisões em referências adultas adaptadas ou em protocolos institucionais isolados.
A consequência prática é dupla. Para o paciente, isso significa risco aumentado em populações que já são intrinsecamente vulneráveis. Para o profissional, significa atuar em zonas de incerteza técnica que poderiam ser resolvidas com formação complementar baseada em evidência. A pós-graduação responde a essa lacuna oferecendo formação estruturada, atualizada e padronizada — sem exigir que o anestesista saia da sua rotina ou do seu município.
Para quem é o programa
O público-alvo da pós é o médico anestesiologista que já concluiu a residência em Anestesiologia e quer se aprofundar especificamente no cuidado da criança e do recém-nascido. O programa cobre o espectro completo da complexidade, da baixa à alta, sempre com ênfase na excelência assistencial e na prática baseada em evidências.
Três perfis encontram aderência clara no programa. O anestesista recém-formado que pretende construir carreira em hospital pediátrico ou em serviço com volume relevante de crianças e quer consolidar a base teórica com profundidade. O anestesista experiente que já atua com pediatria e busca atualização nos temas de fronteira — neuroproteção, USG point of care, anestesia para cardiopatia congênita complexa, manejo perioperatório de criança com TEA. E o anestesista que enxerga oportunidade de mercado em centros que ampliam o escopo pediátrico e exigem qualificação específica para compor escalas.
O critério de seleção é objetivo: graduação em Medicina com diploma registrado pelo MEC e certificado de conclusão de residência médica em Anestesiologia.
Como o curso está estruturado: o desenho geral
O programa é 100% EAD, com carga horária total de 390 horas distribuídas em 12 disciplinas, ao longo de 12 meses. A entrada é intermitente, com datas fixas de início registradas na plataforma.
O modelo pedagógico combina videoaulas gravadas e ao vivo, indicações de leitura científica (livros, artigos, diretrizes e manuais), podcasts, materiais extras como estudos de caso, e avaliação disciplinar ao final de cada módulo. A interação com a tutoria acontece via grupo de WhatsApp, o que dá ao aluno acesso direto a esclarecimentos pedagógicos durante todo o percurso.
A coordenação do curso é do Dr. Alison Menna da Fontoura, anestesiologista que também conduz a disciplina inaugural sobre diferenças morfofisiológicas e farmacológicas em pediatria. O corpo docente reúne especialistas, mestres e doutores em atuação clínica nos temas que ensinam.

A matriz curricular: o que o aluno vai estudar nos 12 meses
A matriz foi construída para cobrir a jornada completa do paciente pediátrico no perioperatório, desde os fundamentos morfofisiológicos até os cenários mais complexos e as competências de gestão do cuidado.
Diferenças morfofisiológicas e farmacológicas em pediatria (30h)
A disciplina inaugural é a base de tudo o que vem depois. Ela cobre as peculiaridades anatômicas e fisiológicas da criança, com ênfase na via aérea pediátrica, as alterações farmacocinéticas e farmacodinâmicas próprias da faixa etária, a avaliação pré-operatória, os protocolos de jejum e a comparação crítica entre anestesia venosa e inalatória em crianças. É o módulo que estabelece o raciocínio diferencial que o anestesista pediátrico precisa internalizar.
Anestesia no neonato (30h)
O neonato é um capítulo à parte da anestesia pediátrica. A disciplina aborda fisiologia e maturação dos sistemas orgânicos no recém-nascido a termo e pré-termo, farmacologia neonatal, manejo de via aérea, estratégias de ventilação, monitorização perioperatória, controle térmico, cuidados metabólicos e analgesia neonatal. Inclui também as considerações éticas e médico-legais que envolvem o cuidado dessa população.
Complicações perioperatórias na população pediátrica (30h)
Aqui o foco é a prevenção, o reconhecimento e o manejo das complicações mais relevantes: eventos respiratórios (obstrução de via aérea, laringoespasmo, broncoespasmo, dessaturação), anafilaxia em pediatria, algoritmos para situações de crise, manejo do sangramento perioperatório agudo e parada cardiorrespiratória perioperatória — sempre com doses ponderais e particularidades pediátricas.
Cuidados com a criança cardiopata: pré, intra e pós-operatório (30h)
Um dos módulos mais densos do programa. Cobre a classificação e fisiopatologia das principais cardiopatias congênitas e adquiridas, avaliação pré-anestésica e estratificação de risco, estratégias anestésicas para procedimentos cardíacos e não cardíacos, monitorização avançada e manejo hemodinâmico. Os cardiopatas cianóticos e acianóticos são abordados de forma específica, com discussão dos cuidados intensivos pós-operatórios.
Anestesia nas subespecialidades pediátricas I (30h)
Otorrinolaringologia (adenoamigdalectomia, procedimentos otológicos, broncoscopia, retirada de corpos estranhos), cirurgias abdominais (herniorrafias, apendicectomia, intussuscepção, estenose de piloro, atresia de esôfago), cirurgias torácicas (incluindo massas mediastinais e pectus escavatum), cirurgias urológicas, cirurgias ortopédicas e cirurgia de escoliose com neuromonitorização. O módulo dá ao aluno o repertório técnico para conduzir os cenários cirúrgicos mais frequentes em pediatria.
Anestesia nas subespecialidades pediátricas II (30h)
A continuidade aborda os cenários de maior complexidade: neurocirurgia pediátrica (PIC, posicionamento, neuroproteção), oftalmologia pediátrica (reflexo óculo-cardíaco, NVPO), cirurgia plástica e reconstrutiva incluindo fissuras labiopalatinas e microcirurgias, grande queimado pediátrico, anestesia na criança com Transtorno do Espectro Autista (com estratégias de comunicação, dessensibilização e emergência tranquila) e anestesia em síndromes pediátricas relevantes como Down, Pierre Robin, mucopolissacaridoses e acondroplasia.
Manejo perioperatório da criança hepatopata, nefropata e oncológica (30h)
Cobre as nefropatias e hepatopatias mais comuns em crianças e suas implicações anestésicas, anestesia para transplante hepático e transplante renal pediátrico, manejo da coagulação e do sangramento nesses transplantes, interpretação do tromboelastograma, avaliação pré-anestésica da criança onco-hematológica e anestesia para cirurgias oncológicas pediátricas, incluindo HIPEC (cirurgia citorredutora com quimioterapia intraperitoneal hipertérmica) em pediatria.
USG point of care e anestesia na criança crítica (30h)
Disciplina que reflete uma das fronteiras atuais da anestesia pediátrica. Aborda noções básicas de ultrassonografia, avaliação de vias aéreas superiores e inferiores, avaliação cardiovascular e fluido-responsividade, avaliação do conteúdo gástrico, protocolo E-FAST, avaliação da bainha do nervo óptico, punção venosa central e periférica guiada por USG, e anestesia na criança com instabilidade hemodinâmica.
Dor em pediatria e cuidados perioperatórios (30h)
Fisiopatologia da dor aguda e crônica, principais bloqueios regionais em pediatria com ênfase nos bloqueios guiados por ultrassom, reposição volêmica perioperatória, avaliação da criança na sala de recuperação anestésica e cuidados pós-operatórios.
Disciplinas complementares de gestão e cuidado integral (40h cada)
O programa fecha com três disciplinas que ampliam o escopo do anestesista para além da técnica anestésica isolada: assistência ventilatória não invasiva e invasiva no neonato e na criança (40h), segurança do paciente e gestão de unidades pediátricas (40h) e terapia nutricional enteral e parenteral em pediatria (40h). Essa visão integrada é um dos diferenciais do programa: o anestesista que entende ventilação avançada, segurança institucional e suporte nutricional toma melhores decisões intraoperatórias e dialoga com mais propriedade com as equipes de UTI e pediatria clínica.

Como o programa se conecta com o restante da jornada do anestesista
A pós em pediatria não é um produto isolado. Ela faz parte de um ecossistema de formação que o Propofando construiu para acompanhar o anestesista em diferentes momentos da carreira.
Para quem ainda está na fase de titulação, vale conhecer o Preparatório TSA e o Preparatório TEA. Para residentes em formação, o Anestesiando oferece apoio acadêmico durante a residência. Para o anestesista que quer atualização contínua nas principais evidências da especialidade, a Conexão Anestésica faz curadoria das publicações mais relevantes.
Quem atua com adultos em cenários de alta complexidade pode também considerar a Pós-Graduação em Anestesia e Cuidado Perioperatório no Paciente de Alta Complexidade, que segue o mesmo padrão acadêmico — 390 horas, 12 meses, EAD, autorizada pelo MEC — voltado para o paciente adulto crítico.
Próximo passo: conhecer o programa em detalhe
Esta visão geral cobre a estrutura do curso, mas cada módulo merece um olhar próprio antes da decisão de matrícula. A página oficial da Pós-Graduação em Anestesia e Cuidados Perioperatórios em Pediatria e Neonatologia traz o detalhamento das disciplinas, o calendário das próximas turmas e o formulário para entrar na lista de interessados.
A anestesia pediátrica é uma das áreas mais sensíveis e mais técnicas da especialidade. Investir em formação estruturada nesse campo é, simultaneamente, uma decisão de carreira e uma decisão de segurança para os pacientes mais vulneráveis que passam pelo centro cirúrgico. Para quem quer fazer essa transição com base sólida, conhecer o programa do Propofando é o ponto de partida natural.
